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segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Para a presidenta Dilma, com carinho: Fale com ela: a destruição da delicadeza


Em 2003, o sucesso no cinema foi o filme Fale com ela, de Pedro Almodóvar, uma denúncia contra o machismo. Com suas ricas metáforas visuais, polêmicas e inovadoras, Almodóvar levou-me a programar com Silvio, meu irmão mais velho, mestre em filosofia, discussões que chamávamos de Arengas Matinais, no então apartamento de minha mãe. Uma forma também criativa de visitá-la, empaturrar-nos de seus biscoitos de polvilho ao jeito de Salinas, e ao mesmo tempo clarearmos o impacto que nos causou o filme, revisto várias vezes.


O resultado foi um artigo crítico em duas partes, publicado pelo falecido Jornal de Casa. Passadas as eleições, a atenção concentra-se nas primeira mulher a dirigir a nação brasileira. Como candidata, acompanhei os seus críticos. Mas, como democrata que desconfia de paradigmas imutáveis, principalmente dos proprios, não há porque não reconhecer os méritos e a biografia corajosa de nossa presidenta, e desejar-lhe mais acertos do que erros. E, como denuncia Almodóvar, o maior erro será confundir-se com os homens que a interfaciam. Como está no texto abaixo, o machismo e o seu atraso penetram até mesmo nas mulheres...

Vejam no link abaixo a análise de Isabela Boscov, da Veja:

http://www.youtube.com/watch?v=czPgf_5DE48




Fale com ela :
o machismo é uma tourada torta

"A moça e a mulher, em sua nova e peculiar evolução, apenas transitóriamente imitarão os hábitos e os vícios masculinos, só transitóriamente repetirão as profissões masculinas."

(Rainer Maria Rilke – Cartas a um jovem poeta)


De repente, uma unanimidade: o último filme de Almodóvar agrada a todos, é premiado em festivais com os adjetivos mais díspares, o Oscar está no papo, ele é um belíssimo e trágico filme que conta a história da impossível comunicação entre os seres, principalmente entre a toureira e os touros. Quer dizer, gostei muito, adorei, adorei muito mesmo, mas o fim é assim meio incompreensível. Mas filme de arte é desse jeito, a gente não tem que entender tudo, é só sentir. Depois dele vou ver umas duas comédias bem leves. Como diz o Ancelmo Góis : é, pode ser.

Mas não é. É um filme pensado e elaborado por um grande artista, que se supera a cada filme, ou melhor, a cada reflexão. Desde o princípio, já na primeira cena, embalado pela belíssima voz de Elis Regina, e depois, por Caetano Veloso (quase uma soprano), o filme nos aponta a que veio: esconjurar líricamente o machismo que sobrevive, agora entranhado nas mulheres. O machismo dos homens já foi suficientemente exposto e rididularizado o suficiente, para que só faça a sua aparição de forma velada em supostos e agonizantes nichos folclóricos, entre outros os nossos Machões Mineiros. Mas o filme O Porteiro nos demonstrou que o pior da tortura é o compromisso que se estabelece entre o torturador e sua vítima. Assim também aconteceu com o machismo. Como um Alien soturno, ele penetra os mais lindos corpos e faces femininos.

Pelos nomes, Pedro Almodóvar didaticamente nos dirige para o assunto central. Lídia significa luta, touro de luta. Seu ex-amante ( o toureiro que Lídia quer superar) é El Niño, o menino. Marcos é argentino e o seu nome é o mesmo do líder de Chiapas. Marcos é um agente de mudança, um Che. Benigno, é o que faz o bem. Alicia, bailarina, símbolo da Arte, uma homenagem a Alicia Alonso, primeira dama do balé cubano, país por quem o diretor nutre pertinaz admiração ( ele sempre doa a Cuba o que sobra da filmagem).O pequeno filme mudo, uma metáfora quase que explícita, que termina com o amante reduzido a uma ínfima dimensão, desaparecendo dentro da enorme vagina, chama-se O Amante minguante. No balé inicial de Pina Baush, o homem indica a porta, a saída. Mas não existe a porta, e sim a parede. Não há saída no machismo.

O machismo é sinônimo do Poder, da vontade do Poder, o filho dileto do mundo capitalista. Vivemos o auge do capitalismo, da vontade do Poder.É preciso dominar a vida, pois assim eu domino a morte, essa demanda terrível em que fui jogado desde que nasci.E a forma que nós lidamos com esse desamparo é o esforço para o domínio da realidade do dia a dia, da violência que se explicita a cada esquina, seja pelo Bush e sua guerra voraz, seja o Beira Mar, o FMI, o Big Brother. A morte é desvelada a cada momento. Dominá-la é preciso e o Poder faz isso. O machismo é uma defesa contra este meu desamparo. Nem que sejam quinze minutos de Poder.

Espanhol e artista, Almodóvar utiliza a tourada como exemplo. Na sua fragilidade, o toureiro traz a esperança de dominar o touro, a pulsão da morte, na cerimônia da capa curta. Lídia é a luta para recuperar o amante perdido, El Niño.Ela perdeu o Poder. Ela tudo faz, inclusive enfrentar seis touros negros acima de 500 quilos ao mesmo tempo para te –lo de volta. É o mais poderoso dos seres, no desvario da razão, mas não deixa de ser mulher. Ela tem medo da cobra na cozinha, um medo que faz questão de sepultar. Ao negar o seu desamparo, Lídia se expõe à violência que pretendia evitar. Torna-se um ser vegetativo, à margem do Poder, na completa alienação , em estado de coma. Benigno, o que bem faz, quer compactuar com o machismo através da palavra e da linguagem . Alicia também está agora em estado de coma, e Benigno fala com ela todo o tempo, e incita Marcos a fazer o mesmo com Lídia Fale com ela. Nosso casamento é melhor do que muitos outros.Mas só ele fala, pois a vontade do poder , a negação do desamparo, impedem a visão e a escuta do outro. E a propósito, ele cita o pequeno filme mudo O amante minguante, onde o simbolismo é direto e rápido. A cientista submete o amante a uma poção experimental, e ele se vê reduzido às dimensões de um feto. No leito noturno, exasperado de desejo (do Poder) , passeia pelos seios, grandes colinas inalcançáveis, e termina penetrando completamente na vagina, e por lá desaparece. Uma das faces do machismo é também o sexo levado ás últimas fronteiras, é o desvario do homem tornar-se feto novamente. A vagina é a porta do útero, o lugar do máximo desamparo, e não mais a entrada da libertação, o amor, soterrado pela vontade do Poder. O amante minguante tentar encontrar de novo a sua mãe no útero, ela sim, conforto cálido que o protegia da morte, na sua infância perdida para sempre.Pois no sexismo a comunicação é sempre pelo corpo, não há linguagem que o conforte e explique o seu desamparo, e o confronte. A saída para a pulsão da morte é o viver, o risco, a negação do machismo. A linguagem para explicitarmos o desamparo é também a arte. É preciso que Benigno morra para que Alicia , a representante da arte, viva. É preciso que Lídia morra, para que Marcos, o representante do risco, da aventura, o argentino Che, viva. E, na última cena, entre os espectadores de um espetáculo, os olhares de Alicia e Marcos se encontram e anunciam o princípio da libertação. Homem e mulher se olhando como dois seres que irão finalmente deixar de lado o machismo , e se encontrarão no começo do fim do desamparo de cada um. Talvez na vocação da arte e no amor.

Women who seek to be equal with men, lack ambition."
(As mulheres que procuram ser iguais aos homens, falta-lhes ambição - Tim Leary )

Almodóvar quase não nos dá tempo, diz logo a que veio, e chama-nos para conhecer Lídia e sua perda. .Apenas nas vozes de Elis Regina e Caetano teremos algum alívio, a música nos enternece e lembra-nos que a delicadeza pode estar próxima. Mas como, se Lídia, que significa luta, perdeu El Niño ( o menino), o toureiro , com quem exercia e disputava o Poder? Nada de delicadezas. Vamos ver durante duas horas a Mulher, Lídia, e o Homem, Benigno, transbordantes de machismo. O machismo é a vontade do Poder, a necessidade de dominar a realidade, a vida e a morte Ela vai travar a sua luta para recuperá-lo justamente no campo por excelência onde os homens lutam, a arena de touros. Mas a tourada não é tão machista como parece, pois ao vestirem-se, Almodóvar mostra-nos como os toureiros são femininos. Nem os homens são tão machos nem as mulheres tão femininas.O machismo se dissemina pelos sexos a fora. É a resposta para o terrível desamparo em que vivemos, a negação da morte , mas sem compromisso com a vida.

Nunca houve tantas mortes e tanta negação da morte. Os americanos inventaram o congelamento das pessoas mortas. Até Timothy Leary, o grande hippie, ao morrer fez congelar a sua cabeça, numa explícita e obscena negação da morte. Morre-se nas UTI´s, nos hospitais, nas estradas, nas prisões, raramente em casa, da antiga morte morrida. O que se esconde na verdade é o processo doloroso da agonia. Vivemos a época da eliminação da agonia. Quanto mais nos sentimos desamparados pela destruição da família, da solidariedade, da amizade, mais vontade de Poder, vontade de domínio. A solidariedade e a delicadeza foram destruídas pela competição desvairada, agora colocada como supremo valor. Quem não compete é fraco. Vejam os políticos e sua linguagem, como usam com maestria o domínio do Poder. Na política, só os homens falam, e as vozes das mulheres corajosas são abafadas e reduzidas pelo desprezo e pelo ridículo.

Lídia se prepara para a tourada num passe que é o limite da audácia. Ela enfrenta seis touros de 500 quilos cada um em uma única tourada, quando todo espanhol sabe que um toureiro enfrenta normalmente apenas dois touros por corrida. Ela quer suplantar os homens. Insufladas pelo capitalismo selvagem, as mulheres do século XXI sentem-se no dever de ultrapassá-los, e nessa competição propagam junto aos maridos, filhos, namorados, àqueles que interagem, a negação da morte, da velhice, da dor que coexiste em nosso viver, a felicidade pelo domínio do Poder. O resultado é uma maratona em busca do corpo mais que perfeito, isolado do Tempo, da juventude ainda que botoxizada, siliconizada, e evidentemente, quando tudo falha, lipoaspirada. Lipo-aspirações, lipo-desesperações. Do máximo de consumo, eu mesma, ao máximo do prazer, e tornar-me imortal

O apelo ao corpo é uma pobreza de linguagem e de leitura interior, não apenas a negação de um processo, mas a negação do ser. O corpo é o Poder, glorificado pela mídia.Não há lugar para o imperfeito, para o diferente, e o menos. Tudo leva ao mais, ao superlativo. A droga é a resposta fulminante para o máximo de consumismo e de prazer, onde se encontra o não-tempo e a não-morte. E a solidão mais completa, pódio aonde se chega depois de muito Poder.

Com a capa curta, ao enfrentar de joelhos o touro negro, Lídia perde essa luta impossível. Almodóvar mostra-nos então a linguagem do machismo através de Benigno, o arauto do bem fazer, e seu discurso unilateral. A linguagem do machismo usa a palavra neste caso como instrumento de dominação. Alicia, em coma, é a interlocutora ideal .. Benigno fala com ela todo o tempo, e tenta convencer Marcos a fazer o mesmo com Lídia. No pequeno filme mudo que conta , O amante minguante, está explícita a metáfora sexual: perder-se para sempre na vagina, no útero, onde estamos protegidos do nosso desamparo.

Marcos e Alicia, os sobreviventes, nos mostrarão que o corpo, a palavra e a solidariedade também podem nos conduzir ao habitat da delicadeza e da arte. Onde não seremos nem dominadores nem dominados, mas mulheres e homens, entrelaçados de esperança, na audácia maior de viver.